História

Em 1980 a comunidade do Centro de Ciências Agrárias, baseada em professores e alunos do curso de Agronomia, ansiava por uma área onde pudessem realizar pesquisas, aulas práticas e estágios e juntos com a Direção, através do professor José Antônio Ribas Ribeiro – diretor do CCA na época, passaram a prospectar áreas que pudessem atender esse objetivo. Uma delas foi onde hoje é o entroncamento da BR-101 com a estrada que leva ao município de Antônio Carlos. Terreno com 400 hectares e muito adequado, onde até projetou-se a construção de moradia estudantil e para os professores. Havia condições facilitadas para a aquisição da área, mas dificuldades internas no corpo docente não permitiram a conclusão do negócio.

Então por uma casualidade o professor Ribeiro soube que um amigo seu de infância, senhor Ítalo Zanella havia arrendado uma área próxima ao aeroporto, onde estava criando búfalos. Veio a saber que tal área era de propriedade da CASAN e que originalmente toda a área do aeroporto Hercílio Luz e mais a da base aérea totalizando mais de dois mil hectares haviam pertencido à secretaria de Agricultura do Estado sob o nome de Fazenda da Ressacada. A CASAN havia recebido aquela área para cedê-la em troca por terrenos altos onde haviam nascentes para abastecimento das diversas comunidades do Sul da Ilha. Porém, como já haviam concluído todas as negociações possíveis, a área que restara de 183 hectares tornara-se sem utilidade para a CASAN e estava por isso sendo arrendada.

O Diretor professor Ribeiro visitou o Governador de então, Jorge Bornhausen através do deputado Evaldo Amaral e na companhia do reitor, professor Ernani Bayer, para reivindicar aquela área, sob o argumento de que no Estado não havia escola de Agronomia e que na ilha não havia espaço para os professores e alunos fazerem suas pesquisas e realizarem aulas práticas e que a CASAN estava com um patrimônio sem utilidade. O governador foi muito compreensivo e colaborativo e sem muita conversa mandou que se fizessem os estudos para a transferência do patrimônio para a Universidade, o que realmente ocorreu em 1982.

Foto aérea da Fazenda em 1979. Fonte: Base Aérea de Florianópolis.

O Centro de Ciências Agrárias recebeu em 1982, por doação do Governo do Estado de Santa Catarina, a área que era previamente da União e foi passada ao estado de SC, então com uma área de terras inicialmente de 183,43 ha (em escritura, contudo sob verificação em 2010 que haveria 169,79 ha de área real atual), pertencente a essa antiga Fazenda Ressacada, situando-se na Rua José Olímpio da Silva, 1326, no Bairro Tapera e município de Florianópolis.

O objetivo principal da aquisição da Estação Experimental, estabelecida naquela ocasião, foi auxiliar na formação dos acadêmicos com realização de aulas práticas e estágios; na consecução de pesquisas agropecuárias e no aperfeiçoamento do conhecimento dos professores.

Esta propriedade dista 19,4 km do CCA/UFSC e 17 km do centro da cidade, fazendo divisa com terras do Ministério da Aeronáutica a norte e a oeste, com terras de Francelino Cordeiro e Antônio Primo a leste e com herdeiros de Luiz D´Acâmpora ao sul.

Essa gleba de terra passou então a ser denominada pela UFSC como Fazenda Experimental da Ressacada, e ficou cerca de oito anos sem utilização efetiva.

Na discussão de um “plano diretor para a fazenda”, logo após sua cessão para a UFSC em 1982, ocorreu uma disputa política interna no CCA da então direção com um grupo de professores que considerava aquela área inóspita e encharcada e sem condições para pesquisas ou aulas práticas.

Essa disputa seguiu por dois anos e culminou com a predominância determinada por este último grupo, o qual procurou outras áreas para atender os objetivos de ensino e pesquisa.

As área da Secretaria de Estado da Agricultura de São Pedro de Alcântara e a Colônia Penal foram então objeto de investimentos do novo grupo, mas, infelizmente não tiveram vida longa, pois tais áreas não puderam ser transferidas para o patrimônio da UFSC.

A Fazenda da Ressacada que na época se chamava Estação Experimental Ressacada foi então, ocupada por posseiros vizinhos e até 1989 ficou nessa condição.

Com a desativação do projeto do Gado Crioulo Lageano que havia encerrado sua missão na serra Catarinense, haviam sobrado animais pertencentes à EMBRAPA que foram adquiridos pela UFSC e precisavam de um lugar para serem criados. Era diretor do Centro então o professor Mário Luiz Vincenzi que com o apoio do reitor Bruno Schlemper Sobrinho, ao final do mandato, e posteriormente do reitor Diomário Queirós com os quais diversas construções foram instaladas e o gado pode ser ali alocado.

Diversos piezômetros foram colocados  sob a coordenação do professor Zeferino Sachet e demonstrado que o lençol freático não era tão superficial como alguns suspeitaram no passado e que tinham motivado o abandono da área por tanto tempo.

Em 1989 foram edificadas as primeiras benfeitorias como cercas e a casa do vigia e capataz, visando alojar vacas oriundas do projeto do Gado Crioulo Lageano.

Nesta mesma época, houve a liquidação do Instituto do Açúcar e do Álcool que doou equipamentos e tratores para o CCA: por iniciativa do professor Paulo Frontin do Departamento da Engenharia Rural e por incentivo e participação direta do professor Mário Vincenzi um importante acervo de tratores máquinas agrícolas, equipamentos de irrigação e drenagem, bombas, e outros do antigo Projeto Nacional do Pró-Álcool do Instituto do Açúcar e do Álcool, o Planalsúcar,  foram transferidos de Itajaí e Brusque para a Fazenda Ressacada. Tal acervo permitiu a real ocupação da área pelos outros departamentos da UFSC.

As invasões, no entanto, eram constantes, pois a estrada que passava pela frente da guarita era uma estrada municipal que ligava Ribeirão da Ilha e Tapera ao Centro via o que hoje é o bairro Carianos e estádio da Ressacada. A nova e atual pista do aeroporto havia cortado essa estrada (entre 1977 e 78), mas diversos moradores a atravessavam ainda assim, causando diversos dissabores à Infraero, pois frequentemente desapareciam luminárias e o gado da comunidade local invadia a pista.

Com a contratação do senhor Flávio Hamilton Santana como o capataz da fazenda da UFSC esses abusos foram reprimidos com muita energia e um ano depois a Fazenda estava livre das invasões e pronta para receber alunos e professores das mais diversas áreas.

Na década de 1990 importantes serviços de terraplanagem e drenagem foram realizados, permitindo a instalação de experimentos com plantas hortícolas, especialmente feijão de vagem, feijão Mungo e mandioca no intuito de desenvolver sistemas de produção agrossustentáveis.

Cumpre destacar ações nesse período pelos Departamentos, de Fitotecnia, com os do professor Lineu Schneider, Lee Shiow Lin, Rubens Nodari, Ana Rita Rodrigues e Paul Richard Miller, no resgate de genótipos de feijão de vagem e depois de milho indígena e mais tarde de Mandioca e projeto silvopastoril. As constantes aulas de estatística experimental realizadas pelos professores Nodari e Maurício Sedrez dos Reis.

Pelo Departamento de Engenharia Rural, o estudo das flutuações do lençol freático e as aulas práticas de Mecanização agrícola e Irrigação e Drenagem. Na área de Mecanização Agrícola, o departamento de Engenharia Rural juntamente com o departamento de Engenharia Mecânica (CTC – Pós-graduação) desenvolveram máquinas para uso em áreas declivosas e máquinas para plantio direto como transplantadoras de mudas, rolo faca, semeadora de precisão, semeadora conjugada para duas culturas. Posteriormente atividades de adaptação de motores e geradores que utilizam biogás e as relações entre plantas florestais e a criação de animais, também foram realizadas nas dependências da Fazenda Experimental.

Pelo Departamento de Zootecnia e Desenvolvimento Rural, destacaram-se estudos referentes à suinocultura ao ar livre, bubalinos (bufalinocultura) e pastoreio voisin, inclusive com gado da raça crioulo lageano e animais silvestres como emas, bovinocultura de corte, melhoramento de pastagens naturalizadas e etologia com a participação dos professores Carlos Falkoski, José Antônio Ribas Ribeiro, Mário Luiz Vincenzi, Luiz Carlos Pinheiro Machado Filho e mais tarde Renato Irgang substituindo Carlos Falkoski que se aposentara.

O curso de engenharia sanitária, já em meados dos anos 1990 também iniciou o projeto de longo prazo sobre os efeitos da contaminação de óleo diesel sobre o lençol freático.

Nesta área experimental foram desenvolvidos vários trabalhos: muitas dissertações de mestrado e muitos trabalhos de iniciação científica, muitas aulas práticas e dias de campo com agricultores e visitas de alunos de escolas primárias e secundárias de Florianópolis foram ali realizados, o que resultou em publicação em vários veículos. Realizaram-se também trabalhos de pesquisas que apoiaram os Programas de Pós-Graduação da UFSC.

Na década de 1990 a Infraero conquistou quase 20 hectares sem muita reação da UFSC e sem contrapartida, por isso a área reduziu-se para um pouco mais de 160 hectares.

Em 2000 foi implantada a primeira coleção de citrus e em torno disso foi implantada a segunda tentativa de SAF que resultou na área com ingazeiros. Em 2003 e 2004 a Fazenda recebeu projetos da Unicef, quando foram desenvolvidas atividades de inclusão de crianças e jovens, inclusive recebeu a visita oficial de Lurian Cordeiro (Lula) da Silva, filha do então Presidente da República. Em 2004 passaram a compor a primeira equipe permanente concursada para atuar na Fazenda, composta inicialmente pelo Chefe de Manutenção Jairo João Luiz, e posteriormente pelo apoio técnico agrícola de Claudio Matera.

No ano de 2005 foram desenvolvidos alguns projetos de instalação e manutenção, assim como um apiário modelo com o objetivo de servir como instrumento de ensino e pesquisa aos alunos dos diversos cursos da UFSC; avaliação de métodos de introdução e desempenho de cereais de inverno na Ilha de Santa Catarina e instalação de composteira para dejetos sólidos de suínos. Em 2006, aproximadamente, foram implantadas as primeiras áreas de silvicultura com coleções de eucaliptos, e plantios em formatos comerciais de eucalipto, pinus e palmeiras-real. Destaca-se que muitos dos projetos implantados não tiveram continuidade por serem de curta duração como o são até hoje.

Foram realizados, também, experimentos de mestrado e doutorado do Centro Tecnológico da UFSC através do Departamento de Engenharia Ambiental, especialmente relacionados com efluentes líquidos e remediação de solos e águas subterrâneas, os quais ainda encontram-se em execução através do REMA.

Em 2008, sob direção de centro da Professora Aimê Rachel Magalhães, o professor Alberto Kazushi Nagaoka passou a coordenar o Laboratório de Mecanização Agrícola da Fazenda, coordenando as aulas práticas e os experimentos realizados na área de mecanização agrícola. Em Setembro instituiu-se o cargo de Supervisor da Fazenda Experimental da Ressacada. Então o professor Alberto passou a supervisionar a Fazenda sob a portaria Número 063/CCA/2008. Neste período foi contratado o Engenheiro Agrônomo Otávio Rechsteiner Maghelly através de concurso público para auxiliar na administração da mesma.

Nos meses de outubro e novembro de 2008, o Supervisor Docente juntamente com o Engenheiro Agrônomo realizaram reuniões com os Departamentos do CCA, empresas júnior, alunos e demais envolvidos para apresentação do “Projeto de Revitalização da Fazenda Experimental da Ressacada”.

A prioridade para os meses de dezembro de 2008 e janeiro de 2009 foram a viabilização de recursos para implantação dos projetos e melhorias na Fazenda, entre eles o projeto de estabelecimento de uma horta didática em parceria com a PRAERU.

Em 2009 o Conselho da Unidade aprovou a Resolução 001/CCA/2009 aprovando as normas para utilização da Fazenda Experimental da Ressacada, atribuições do supervisor, alocação de áreas apenas durante o desenvolvimento dos projetos, entre outras coisas. Neste mesmo ano foi realizado um levantamento topográfico geral e completo da Fazenda onde identificou-se que a área total da mesma é de 169,16 ha e não os 183,43 presentes em escritura.

Em janeiro de 2010, sob direção de centro pelo professor Edemar Andreatta, foram contratados outros engenheiros agrônomos para o CCA, passando a atuar na Fazenda: em janeiro Marcelo Venturi, em fevereiro Nuno de Campos Filho e em maio Sebastião Ferreira Magagnin também foi contratado. Em julho de 2011 Ricardo Barbosa Felipini se juntou à equipe deixando a mesma em março de 2012. Em 2012 passou a auxiliar a equipe administrativa, João Luiz Laureano. Juntos atuam como gerentes de projetos na Fazenda para auxiliarem na revitalização e viabilização da mesma administrando os diferentes projetos e áreas didáticas existentes. Em 2013 a Fazenda passou a contar com os serviços do técnico agrícola Elson Rezende e com a administração de Carlos Carubelli.  Em 2014 foi contratado o médico veterinário Thiago Mombach P. Machado como responsável pelos biotérios, criações e pesquisas com animais da Fazenda.

Pré-projeto da ampliação (2012) do novo aeroporto com respectiva nova via de acesso, que necessitou de parte de área da Fazenda.

Com a necessidade da ampliação do Aeroporto Internacional Hercílio Luz, que faz limite com a Fazenda ao norte, ainda em 2008 a Infraero, a Direção do CCA em conjunto com a Pró-Reitoria de Relações Institucionais e Internacionais mantém negociações com o Governo do Estado de Santa Catarina, a fim de efetivar uma permuta de terras da Fazenda Experimental da Ressacada, por uma faixa de aproximadamente 320 metros paralela a atual cerca limítrofe com o Aeroporto. Esta área de quase 47,8ha cedida à Infraero foi trocada com o Governo de SC por uma área equivalente pertencente ao Centro de Formação e Aperfeiçoamento da Celesc – CeFA, que faz limite com a Fazenda ao Sudoeste. Em 2012 se efetivou esta transferência do CeFA para o Governo do Estado, mas ainda em março de 2012 não havia ocorrido a transferência do Governo para a UFSC. Segundo notícias veiculadas na mídia, as obras do novo Aeroporto estavam previstas para iniciarem em maio de 2011, mas iniciando praticamente apenas em 2012, com inauguração que estaria prevista para março de 2014. Ainda em 2017 não tiveram as obras concluídas.

A partir de 2010, com a equipe enriquecida, a Fazenda passou a ter possibilidades de apoio e desenvolvimento de diversas áreas de estudo com mais adequado suporte. Assim se reestruturaram as estruturas básicas e se (re)implantaram as coleções de abacaxis, posteriormente também as áreas de medicinais, coleções de aipim, horta para aulas de olericultura, o novo aviário e coelhário aproveitando as antigas estruturas de suinocultura. Em 2011 iniciaram-se os cursos com bambus, a implantação da área e cercas para bovinos com a aquisição do novo lote de animais. Em 2012 se iniciaram os estudos ambientais visando enriquecer o conhecimento para licenciamentos da fazenda sobre fauna, flora, arqueológicos, hidrológicos entre outros. Também se implantou a nova área de silvicultura com plantios de bracatingas, eucaliptos e pinus, e posteriormente bambus. Em 2014 foi implantado o projeto de ovinocultura orgânica com hortaliças, junto ao Lecera.

Atualmente a Fazenda Experimental da Ressacada vem sendo utilizada como suporte para várias disciplinas dos cursos de graduação em Agronomia, Engenharia de Aquicultura e Zootecnia. Os acadêmicos têm oportunidade de conhecer as práticas ligadas à produção vegetal e animal, máquinas agrícolas e outras técnicas e sua implicação sobre o manejo de solo e plantas, planejamento rural entre outras.

Fontes e referências:

– Relatos escritos e documentos do CCA.

– Relato do professor José Antônio Ribas Ribeiro, através dos contatos desta página.

– Relatos do servidor Alencar Antônio da Cunha.

Registros fotográficos da Fazenda na Galeria da UFSC.